Políticas públicas e cultura digital: inclusão ou maquiagem educacional?

 No decorrer da história, a tecnologia foi se transformando para atender às demandas das pessoas e da sociedade. Nesse sentido, para suprir as necessidades e garantir os direitos da população ao acesso às tecnologias, surgiram as políticas públicas. Essas políticas, no século XX, funcionaram como uma ferramenta de apoio às práticas pedagógicas, ou seja, os professores utilizavam os recursos com o mesmo intuito do quadro de giz,  a diferença é que agora os docentes não precisavam escrever, pois o conteúdo poderia ser transmitido por meio da tela do computador. Além disso, alguns mestres passavam para seus alunos realizarem pesquisas, as quais não eram aprofundadas e não eram usadas depois para quaisquer fins pedagógicos.

Nesse sentido, a implementação dos recursos digitais nas instituições de ensino não foi acompanhada de uma formação qualificada dos professores para utilizarem esses mecanismos, pois os aparelhos recém chegados visavam apenas confirmar a ideia de modernização da educação brasileira. No entanto, muitas escolas não possuíam sequer eletricidade ou espaços para colocá-los. No século XXI, as políticas públicas passaram por uma universalização de seu acesso, visto que surgiram programas que tinham por objetivo a inclusão digital e a alfabetização digital dos estudantes, como o Proinfo e o Banda Larga. Entretanto, um problema continuava a conter esse avanço, a falta de políticas públicas de Estado, pois as políticas existentes são, na maioria das vezes, políticas de governo, o qual não possui uma continuidade. Assim, o processo de alfabetização e inclusão não promove os efeitos esperados.

Ressalta-se que esses fatores impulsionam as desigualdades regionais, pois enquanto o Sul e o Sudeste apresentam estruturas apropriadas para receberem esses recursos, além de serem os primeiros a receberem esses aparelhos, as regiões Norte e Nordeste são locais que historicamente, são negligenciados, seja pela demora da implementação das políticas ou pela falta de infraestrutura. Além disso, cabe destacar que é nas escolas que muitas crianças e adolescentes têm acesso às tecnologias. Mas, em detrimento desses impedimentos, muitos estudantes são “excluídos” ao invés de serem incluídos. Dessa forma, o texto de Nelson Pretto é fundamental para compreender que a tecnologia escancara ainda mais as desigualdades existentes no Brasil, pois apenas uma parte da população tem acesso a esse meio, o que acaba prejudicando sua formação como cidadão produtor de cultura e conhecimento, visto que não possuem aproximação com as informações do mundo.

No contexto de modernização das escolas públicas com tecnologias digitais, o Brasil apostou nesse caminho por meio de programas como ProInfo, TV Escola, UCA e PNLD Digital. À primeira vista, parecem avanços mas, ao olhar mais de perto como faz Bonilla, percebemos que esses projetos muitas vezes carregam mais promessas do que transformações reais. Foram lançados sem que houvesse a devida preparação estrutural, pedagógica ou política. O resultado? Salas equipadas, mas vazias de sentido, professores conectados, mas desconectados da cultura digital.

O problema não está apenas na falta de recursos, mas na forma como a tecnologia é tratada,como muleta e não como linguagem. A escola segue reproduzindo um modelo verticalizado, apostando em "aulas de informática" e "pesquisas no Google" como se isso fosse inclusão digital, mas não é. Incluir digitalmente é permitir a produção de conhecimento, o exercício da autoria, a participação crítica nas redes e isso está longe da realidade de boa parte das escolas públicas.

Nesse sentido, ser docente nesse contexto exige mais do que operar tecnologias, requer compreensão das suas potências pedagógicas e seus limites políticos. Não se trata de aprender a usar ferramentas digitais, mas de compreender o digital como cultura, linguagem e espaço de disputa. Isso exige uma formação docente comprometida, que vá além da técnica e mergulhe no debate político e social. A tecnologia na educação precisa deixar de ser um acessório e se tornar parte orgânica do projeto pedagógico. Para isso, é preciso que as políticas públicas sejam mais do que listas de equipamentos, devem ser processos vivos, construídos com e para quem está na escola.

Comentários

  1. Alex e Brenda, vocês construíram uma bela reflexão, considerando os aspectos que impedem a implementação das politicas públicas de tecnologias na escola. O que me preocupa é ainda a presença da concepção das tecnologias como ferramenta. Na primeira vez que apareceu, entendi que estavam fazendo uma critica, pois de fato quando o professor faz uso com " o mesmo intuito do quadro de giz, a diferença é que agora os docentes não precisavam escrever, pois o conteúdo poderia ser transmitido por meio da tela do computador.", estamos numa concepção da tecnologia como ferramenta.

    Contudo, ao final do textos, vocês afirmam que "Não se trata de aprender a usar ferramentas digitais, mas de compreender o digital como cultura, linguagem e espaço de disputa. ". E aqui temos uma contradição, pois como afirma Bonilla, no seu texto sobre as políticas publicas de inclusão digital na escola, "é necessário ultrapassar a ideia de uso das TIC como ferramenta de capacitação para o mercado de trabalho, através de cursos técnicos para a população de baixa renda, ou então como meras ferramentas didáticas para continuar ensinando os mesmos conteúdos na escola".

    O que quero que reflitam é o que esta perspectiva de aprender a usar a ferramenta digital é a perspectiva de "animar" a velha educação. Precisamos questionar: essa perspectiva está estruturando a minha prática com propostas que levam a autoria, a colaboração, a produção de conhecimento e culturas? Não queremos aulas mais modernas e interessantes - lembram do vídeo tecnologia ou metodologia? O que queremos é que pensem em práticas que envolvam as crianças para sair do lugar de consumidor de conteúdo, para juntos tornarem-se produtores de conteúdos e conhecimento. Importante refletirmos se queremos inovação ou se queremos mudança de prática, certinho? Bjos

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